Um convite a construção artística coletiva. 


Edifício Tijucas. Centro de Curitiba. Pelo menos dez mil pessoas circulam diariamente por dentro do gigante vertical curitibano. Organismo vivo. Cidade vertical. Cidade esta que revela-se um lugar de estar inteiramente atravessado pelos territórios do ir e vir.
Se é uma cidade, entendemos que todos temos o direito de conhecer suas entranhas, seus becos e suas praças. Para isso, utilizamos a técnica situacionista do “deixar-se ir” conhecida como “deriva”. 
A deriva é a exploração e reapropriação da cidade. Ela nos ensina a arte da descoberta e da transformação e propõe o caminhar como modalidade de pesquisa. Atuamos no edifício Tijucas na escala 1:1, como ação física do ambiente. O seu objetivo foi de reativar nas pessoas a sua inata capacidade de transformação criativa, de recordar que as pessoas têm um corpo e mãos para modificar o espaço no qual habitam. 
A prática aconteceu de forma estrábica, através de uma meta e aquilo que distraiu da meta através dos incidentes do percurso, na possibilidade de errar o caminho deliberadamente, olhando e ouvindo os fenômenos imprevisíveis da vida vertical do edifício.

O objetivo foi de conhecer o Tijucão e absorvê-lo para a prática artística. A deriva convidou à observar a vida minuciosamente e com isso propões ações materiais, imateriais e imaginárias de modo a encontrar novas formas para descrever a vida em sociedade. Uma destas formas foi o desenrolar do novelo vermelho juntamente com o caminhar ao longo dos vinte e um andares do edifício. Com isso, poderíamos criar novas situações, novos jogos e novas atmosferas. Os participantes da deriva vertical esticaram e alongaram o fio vermelho por entre portas, janelas, extintores de incêndio, rodapés, etc Criando uma instalação viva, tornando o não-espaço do corredor um lugar vivo, fazendo com que os outros espectadores interagissem dentro da transitorialidade, como um susto, afinal ninguém esperava encontrar arte nos corredores, somente esperavam salas preenchidas, partindo do pressuposto de que as pessoas vão ao encontro da arte. Desta vez a arte os encontrou. Nesse sentido comprovamos que o caminhar, mesmo não sendo a construção física de um espaço, implica uma transformação do lugar e dos seus significados.

Ao mesmo tempo sentimos a instalação do caos. Corpos se contraindo, se abaixando, reclamando, erguendo-se, contrariando-se. 

Sucesso. A instalação viva serviu justamente para isso. Para as pessoas prestarem atenção e pararem. Pararem seu ritmo frenético imerso no líquido amniótico do não lugar e aproveitar o corpo e as mãos que tem. Interagirem com o prédio e com os demais. Sentirem. Tocarem. 
Descemos assim, construindo situações do 21º até o 11º, quando o fio resolveu nos deixar. Nos despedimos do nosso aliado. Ritual fúnebre. 
Caminhamos até o 6º andar. Entramos na sala do Clube da Colagem de Curitiba para o último exercício. Apresentei a ideia do “Mapa Psicogeográfico”, onde iríamos desenhar o percurso, como mapa mental, e assim transcrever sobre o papel a nossa experiência. Os mapas concebidos foram traçados de um percurso, onde a viagem foi utilizada como estrutura narrativa. 
Partimos novamente. Desta vez em direção a Rua XV e ao fim da expedição. Já era fim de tarde e o pôr do sol se aproximava junto com o calor da multidão. Assim finalizamos a errância no lugar de sua excelência: a rua, no princípio da convivência. Espaço magistral de recepção dos desígnios coletivos. 
Obrigado a todos que construíram paisagem. 


Fotos: Lucía Alonso, Guilherme da Costa.