O que há entre o acima e o abaixo?

Exposição individual - Museu de Arte de Blumenau 
08.nov de 2018 a 17.fev de 2019

Blumenau, Brasil

A cidade de Posverite parece ser como qualquer outra, embora não seja possível afirmar disso, porque não a conhecemos totalmente. Pode-se dizer que surgiu como todas as províncias surgem: sobre as rochas lapidadas à medida que os habitantes ocupam o lugar. Nesta encontramos vários habitantes, entre eles, o Tapiti negro, possuidor de difíceis humores. Lá no alto encontra-se o corvo branco, que costuma tomar banhos de formiga - prática que proporciona o contato com ácido fórmico, uma ótima substância recreativa. Ali também mora Miguelito, um adorável homem que adora ostentar um tingimento natural em seus lábios, ganhando muitos elogios por onde passa. Se não os recebe, usa a máscara social, muito comum em eventos. O burro sem carga é feliz, mas se entedia facilmente. Para não caírem no puro tédio, os habitantes fazem uso da tradicional erva da região.

Como em toda cidade, existe a oligarquia local, que em Posverite é formada pela família dos ursos. O mais novo herdeiro do clã já encontra um dilema: diversão ou trabalho? Soube-se que depois de alguns anos que o urso tomou conta dos minérios locais, construiu uma fábrica e tomou o poder de maneira brutal, decidindo por todos o dilema, só haverá trabalho, nenhuma diversão.

Será que já não vimos tudo isso?

Nesta série de trabalhos, Fernando Moleta tensiona essa pergunta quando realiza diversas invenções tradutórias e transpõe códigos sociais urgentes do momento histórico presente para uma ficção em que os personagens trazem consigo a aparência não-humana.

Estamos sempre buscando conhecer os não-semelhantes. Muitas vezes em razão do exótico e do fetiche, e por consequência pela sensação de soberba frente à estranha natureza. Entretanto, o que se revela para nós nessa busca é apenas parte da nossa falha e incompletude presentes no reflexo. Não somos capazes de saber tudo. Projetar-se no outro e projetar o que virá são obsessões cabíveis às limitações da realidade humana - aí acontece, como disse Baudrillard, “a arte de fazer o outro desaparecer”. Ao encontro da fábula e do conto como forma de transmitir as sabedorias sobre o mundo, esse desaparecimento dá luz a um encoberto escancaramento de tempos e espaços que se repetem. Só resta a nossa imagem que faz jus à teimosia de que somos os vencedores do jogo da existência - cujas regras nós mesmos inventamos e que já estão ultrapassadas. Essa competência é uma ilusão em que se escolhe acreditar, frente a outras tantas pós-verdades.

Então o que há realmente entre o acima e o abaixo?


Talvez o direito de resposta a essa pergunta já não caiba mais à nós.

Texto de Marina Ramos

Novembro de 2018