Fernando Moleta: a estética do animal laborans.

 

Como quase toda obra filosófica, “A Condição Humana” de Hannah Arendt é atemporal. Os mesmos argumentos escritos em 1958 se estendem ao presente. A filósofa teuto-americana apresenta as três atividades que definem a humanidade: labor, trabalho e ação. O labor permite que o ser humano sobreviva a partir de sua estrutura biológica; o trabalho permite transformar a natureza para que sejamos diferentes das outras espécies; e a ação cria a pluralidade humana por meio de, por exemplo, lazer e arte. Assim, surge o animal laborans – a sociedade de consumo onde tudo é efêmero e descartável, inclusive o homem. Homens tornam-se bens para serem consumidos de forma cada vez mais veloz.

Essa condição apresentada por Arendt não pode ser isolada da tecnologia – quando  essa é o aperfeiçoamento da técnica, tanto biológica quanto material. A tecnologia nos permite evoluir, mas nos consome na mesma escala. Esse movimento não passa despercebido na produção artística de Fernando Moleta. O artista consegue apresentar essas questões com uma estética repleta de referências modernas e pós-modernas.

Embora a produção de Moleta seja feita com meios tradicionais (pintura, escultura, impressão, fotografia, colagens, etc.), ele nunca deixa de lado objetos que representam a exaustão ou questionamento do homem em relação ao seu trabalho, montando assemblages inéditas do cotidiano de escritório em forma de obras que nos clareiam sobre nosso lugar no mundo enquanto humanos.

Sua obra parece tanto estar cada vez com mais vontade de sair de suas superfícies primárias e se mesclar ao mundo, que a performance tem se mostrado um caminho certeiro e seguro para o artista, que empresta seu próprio corpo para amarrar sua ideias. A arquitetura em sua produção, não só como tema, mas como elemento, faz jus à formação do artista, que constrói perfeitamente suas obras para que se sustentem tal como uma construção concreta, mas que permitem ser vistas por diversos ângulos.

Ao observar as obras de Moleta não é difícil se transportar para grandes nomes da arte conceitual, como Jhon Baldessari, Jenny Holzer, Lawrence Weiner, Joseph Beuys ou Louise Lawler. Ao mesmo tempo, também nos leva a um cenário de Roy Andersson com uma arquitetura que mescla Philip Johnson e Oscar Niemeyer.

Essa mistura de estéticas alcança um resultado que nos permite pensar no homem e seus limites do trabalho, no capitalismo e na tecnologia que vem potencializando nossos pensamentos sobre quem somos e para onde vamos, ao mesmo tempo que nos distraem enquanto vivemos neste tempo e espaço.

O trabalho de Fernando Moleta é um bom lugar para se estar se queremos entender o animal laboran, que acompanha as transformações políticas, econômicas e sociais. Como bem cita Patrícia Moran Fernandes, um dos grandes nomes brasileiros da semiótica, “em tempos de mutação, há que se ficar bem perto dos artistas”. 

Carolina Loch

Fernando Moleta: the animal laboran’s esthetics.

 

Like almost every philosophical work, Hannah Arendt's “The Human Condition” is timeless. The same arguments written in 1958 can be extended to the present. The german-american philosopher presents the three activities that define humanity: labor, work and action. The labor allows the human being to survive from its biological structure; work allows us to transform nature so that we can differentiate ourselves from other species; and action creates a human plurality through, for example, leisure and art. Thus, it is born the animal laboran - a consumer society where everything is ephemeral and disposable, including man. Men become goods to be consumed more and more quickly.

This condition presented by Arendt cannot be isolated from technology - when this is the improvement of the technique, both biological and material. Technology allows us to evolve, but it consumes us on the same scale. This movement does not go unnoticed in the artistic production of Fernando Moleta. The artist manages to present these issues with a esthetics full of modern and post-modern references.

Although Moleta's production is made with traditional bases (painting, sculpture, printing, photography, collages, etc.), he never leaves on the side objects that represent the exhaustion or questions of man in relation to his work, creating unprecedented assemblages of the office daily life through  works that clarify our place in the world as humans.

His work seems to be increasing its desire to leave its primary surfaces and merge itself to the world, so performance had shown to be a certain and safe way for the artist, who lends his own body to tie his ideas. The architecture in his production, not only as a theme, but as an element, makes clear the artist’s academic graduation and perfectly builds their works to support themselves as a concrete construction, that can be seen from different angles.

When observing Moleta's works it is not difficult to transport ourselves to great names of conceptual art, such as Jhon Baldessari, Jenny Holzer, Lawrence Weiner, Joseph Beuys or Louise Lawler. At the same time, it also takes us to a scenario by Roy Andersson with an architecture that mixes Philip Johnson and Oscar Niemeyer.

This mix of esthetics achieves a result that allows us to think about man and his limits of work, capitalism and technology that has been potentiating our thoughts about who we are and where we are going, at the same time that distracts us while we live in this time and space.

Fernando Moleta's work is a good place to be if we want to understand the animal laboran, which accompanies political, economic and social transformations. As says Patrícia Moran Fernandes, one of the great Brazilian names in semiotics, “in times of mutation, we must be very close to the artists”.

 

Carolina Loch