Museu Industrial e Sociedade Operária

Anne Cauquelin1, de ne a paisagem como a apresentação culturalmente instituída da natureza que nos move. Esta imagem, que inicia a apresentação deste projeto, anuncia qual é a natureza culturalmente transformada em questão. O bairro Rebouças, em Curitiba, capital do Paraná, é um tradicional bairro industrial da cidade, sendo morada das antigas fábricas do século XX, o auge da economia da erva mate paranaense, tendo sido um grande polo industrial do país.

O bairro manteve tais características até a criação da CIC (Cidade Industrial de Curitiba), dentro do Plano Diretor de 1965. Com a criação da CIC, o Rebouças passou a ser, gradativamente, negligenciado, tanto pelo poder público, como abandonado pela população que o frequentava. Segundo Pinheiro, “o bairro tornou-se uma região com baixa densidade populacional, fato associado ao abandono das grandes estruturas edi cadas, o que se re etiu nas condições sociais e de segurança do bairro”2

Desta maneira, este trabalho visa colaborar com a requali cação deste bairro tão importante para a cidade, possibilitando com que os estratos 

históricos da atuação da sociedade sobre este território sejam observados à altura da sua importância histórica e cultural.

Atualmente este estado degradado convive com a sociedade contemporânea, que através de diferentes agentes, lutam por uma porção territorial, que em muitas vezes é transformada em edifícios que não se correspondem com o contexto imediato. Assim, este projeto visa os novos usos que a paisagem pode comportar, através de uma cuidadosa leitura, a m de instalar um objeto contemporâneo que possa relacionar-se harmonicamente com seu entorno, além de oferecer um programa que também dialogue com estes temas.

Este objeto aqui é representado por um centro cultural portador de um museu industrial que possa dar conta da história da região, bem como dialogar com os desa os contemporâneos através da didática de um museu para com seu público. Também é prevista uma sociedade operária, onde a força trabalhadora do bairro possa usufruir do lazer, da educação e da crítica social. 

O edifício está localizado no terreno situado pelas ruas Mariano Torres, ao leste, e Tibagi a oeste e pelas Avenidas Presidente Affonso Camargo, ao norte, e Silva Jardim, ao sul. Este lote, ilhado por quatro ruas de grande uxo de automóveis e pedestres, atua como um grande enclave urbano, caracterizado por uma conexão histórico-contemporânea entre a produção da matéria prima e do alimento nas indústrias do bairro Rebouças, do transporte de tais produtos pela antiga ferroviária, situada a oeste, e a atual rodoferroviária a leste, e o eixo de consumo representado pelo comércio da Rua Mariano Torres em direção ao centro da

cidade.

 

Desta maneira, acredita-se que esta complexa trama sócio-espacial cou à margem do desenho urbano ao longo dos anos, por isso a escolha desta área para a instalação deste projeto, cujo desígnio principal é o de gerar um lugar de contemplação, pensamento crítico e repouso em meio a este atual não-lugar.

Assim, o edifício é compartilhado por dois programas: o Museu Industrial e a Sociedade Operária. O acesso do primeiro acontece por uma rampa localizada na esquina entre a Avenida Pres. Affonso Camargo e a Rua Tibagi. Esta rampa desce até o subsolo de nível -4,50 metros, onde o visitante é recepcionado por um hall, e em seguida a primeira sala expositiva. Para dar continuidade à visita, sobe-se por uma escada helicoidal onde chega-se à segunda e última sala expositiva, localizada no nível térreo.

É possível continuar o passeio pela sociedade operária, onde já no nível térreo encontra-se um salão de baile que se abre para a praça pública localizada na porção posterior do terreno. Ali também há um café e um pequeno restaurante. Além do acesso pelo Museu Industrial, também é possível acessar a Sociedade Operária por um grande e largo portão basculante, posicionado na fachada leste do térreo.

Sobe-se para o primeiro pavimento por uma escada projetada para fora do edifício revestida pelo vidro translúcido U-glass, que caracteriza boa parte do edifício, além do revestimento externo de chapa de zinco.

No primeiro pavimento encontra-se o atelier e a biblioteca de uso comunitário, bem como o auditório. Também estão localizadas as funções administrativas. 

Acima, o último pavimento, abriga um lugar de comtemplação e repouso, destinado a abrigar o trabalhador que desejar comer seu almoço, usar a internet wi- ou simplesmente descansar. Para acessá-lo, sobe-se pela escada helicoidal localizada dentro do elemento vertical de cor verde-neon. Lá, também há um espaçoso belvedere e um auditório a céu aberto.

Assim, acredita-se que este edifício possa contribuir para uma cidade mais amorosa, harmoniosa e dotada de senso estético e crítico para com a sua paisagem.

1 CAUQUELIN. Anne. A invenção da paisagem. Tradução: Marcos Marcionilo. São Paulo: Martins, 2007

2 PINHEIRO, André. et al. Paisagem fabril: Matte Leão e Matadouro Modelo. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2012.